Sou um filho do tempo, domesticado pelas horas junto à mesa de almoço ao meio dia.
No prato, suor de dias e noites inteiras.
Fui vencido pelo destino que pacificamente aceitei.
Arrastado pela avalanche de pensamentos e coisas que me roem.
Sou poeira levada pelo vento para junto das folhas secas das árvores.
No silêncio do fim do dia, assemelhado a uma prece, dou-me por vencido.
Não vencido ao final de um jogo ou batalha de guerra, mas abatido pelo tempo que tudo leva e deixa para trás.
Estou lúcido, pateticamente lúcido, mas não escolhi a lucidez que me veste, ela foi imposição dos meus dias.
As mortes sucessivas.
Os sonhos desfeitos.
O segredo guardado na boca.
O rancor grudado no peito.
Feridas abertas no tempo.
Cicatrizes na alma.
Ah! Se eu pudesse por todas as dores e males numa caixinha e atirá-la para bem longe no mar e voltar a ser a criança que fui levada pela cadência paciente das ondas.
Mas sigo o curso implacável do tempo, inevitavelmente sem demora.
Resta-me aceitar o ser, ser poeira, leve e passageira enquanto vento houver na frágil pequenez do existir, prestes a abandonar-se na próxima esquina.
Walterli Lima





