COLUNA DO PROFESSOR WALTERLI LIMA: SOU POEIRA AO VENTO 

Sou um filho do tempo, domesticado pelas horas junto à mesa de almoço ao meio dia.

No prato, suor de dias e noites inteiras.

Fui vencido pelo destino que pacificamente aceitei.

Arrastado pela avalanche de pensamentos e coisas que me roem.

Sou poeira levada pelo vento para junto das folhas secas das árvores.

No silêncio do fim do dia, assemelhado a uma prece, dou-me por vencido.

Não vencido ao final de um jogo ou batalha de guerra, mas abatido pelo tempo que tudo leva e deixa para trás.

Estou lúcido, pateticamente lúcido, mas não escolhi a lucidez que me veste, ela foi imposição dos meus dias.

As mortes sucessivas.

Os sonhos desfeitos.

O segredo guardado na boca.

O rancor grudado no peito.

Feridas abertas no tempo.

Cicatrizes na alma.

Ah! Se eu pudesse por todas as dores e males numa caixinha e atirá-la para bem longe no mar e voltar a ser a criança que fui levada pela cadência paciente das ondas.

Mas sigo o curso implacável do tempo, inevitavelmente sem demora.

Resta-me aceitar o ser, ser poeira, leve e passageira enquanto vento houver na frágil pequenez do existir, prestes a abandonar-se na próxima esquina.

 

Walterli Lima

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