Sou o olhar transbordado nas paredes caídas das ruínas.
Sou o desprezo do indigente debruçado na calçada atrapalhando a passagem.
Sou o silêncio inabalável dos sarcófagos nas tumbas dos faraós.
Sou a incerteza que brota todas as vezes que o sol vai dormir.
Estou repleto de vazios.
O vazio das coisas inúteis que me cercam.
A fragilidade dos sentimentos.
A bituca do cigarro abandonada na valeta da rua de onde foi retirado todo o prazer.
A vida é sempre assim, um sonho morre para dar lugar a outro.
A ruína fora antes moradia viva de olhos arregalados em volta da mesa.
O indigente também foi capaz de sonhar um dia, mesmo que vãmente.
Dos restos nas tumbas, pulsou um coração.
O vazio é sempre mais profundo que as abundâncias, pois nele reside o âmago das coisas e dos seres.
Sou forte, sou frágil.
Sou homem , sou mulher.
Sou a lágrima escorrendo na face.
Sou o eco do grito amordaçado.
Sou a insegurança na mão da criança abandonada pela mãe.
Eu sou o fim de tudo que há.





