A MORTE DAS PALAVRAS
As cartas morreram, sufocadas nas gavetas.
Restaram apenas histórias.
As palavras, antes saltitantes nas bocas, deram lugar às pontas dos dedos.
E não é um silêncio que contempla.
É um silêncio que rouba tudo ao redor,
algo que devora e nunca se sacia,
furtando, aos poucos, a presença mesmo dos que ainda estão aqui.
As crianças esqueceram as brincadeiras de roda.
Os amigos já não trocam boas risadas.
Até mesmo os casais deixaram de sussurrar confidências.
E assim, sem alarde, morrem a convivência, as amizades
e até mesmo o amor.
À mesa, ao meio-dia, os olhares já não se demoram uns nos outros,
e nada dizem sobre como foi a manhã.
Bons tempos, aqueles em que as cartas, ainda vivas,
respiravam nas mãos de quem as escrevia.
Caminho sem volta.
Quanto mais dentro das máquinas, mais distante do mundo.
Walterli Lima





