Se não chove, peço a chuva como um desejo numa prece e quando ela vem escondo o rosto sob o abrigo.
Anseio pelo final do dia depois de um dia afadigado pela prisão da rotina e quando a noite chega recolho-me entre as paredes.
Tenho dito em um grito que não guardo esperança no amanhã, mas ainda assim ligo o despertador antes de dormir.
Estou a cada dia mais só.
Agente vai morrendo vagarosamente quando os que conhecemos aos poucos se vão.
Certa vez meu velho pai me disse
– Filho, eu já não tenho nenhum amigo ao redor. Todos os o que conhecia dos quais fui cúmplice dos anos, partiram.
A solidão da velhice é uma punição do não morrer numa ferida aberta das ausências.
Caminho entre árvores, quem sabe a natureza me dará as respostas que a tanto tempo busco.
Ah… Como é agradável a flor da laranjeira num perfume que me remete a sensações e sentimentos há muito esquecidos.
Quem roubou de mim a faúlha da juventude?
Quem tirou dos meus olhos o sorriso de criança?
O homem que ganha a vida desmedidamente entregue ao trabalho diário tem sempre algo furtado de si.
Olho para o céu encoberto por nuvens escuras, a brisa gélida encontra minha pele num prelúdio da chuva por vir.
Volto para a proteção do abrigo e os pingos golpeiam o telhado insensível num contraste à alegria das copas das árvores no vento.
Por instantes esqueço as ausências e tudo que perdi.
Desprendo-me das algemas do hábito e das obrigações que me esperam no amanhã, se no amanhã eu assim estiver.
Minha vida é uma tempestade de verão.
Contradições.
O cão ao meu lado sacode o rabo distraído num sinal de contentamento.
Ele não sabe sobre a chuva, nem sobre a flor da laranjeira ou ainda sobre as estrelas e cosmo infinito sobre nossas cabeças.
Não vive o fardo das ausencias e o hábito não lhe pesa sobre os ombros.
Ele é mais feliz do que eu.
@walterli.lima





