A tempo é o mais gatuno dos ladrões.
Primeiro nos furta a inocência da infância.
Em seguida, o ímpeto juvenil.
Até nos atirar no abismo das verdades do espelho.
Acumulamos bagagens na vida toda para ao fim não suportarmos o peso nos ombros.
Lembro-me do meu velho pai.
Do olhar vazio no horizonte.
É quando o tempo já furtou os amigos.
É quando a morte carregou os que nos cercavam, um a um.
É quando os sonhos e segredos não fazem mais nenhum sentido.
A velhice é impiedosa.
A inutilidade para o trabalho.
O asilo ou ao menos um quartinho nos fundos da casa.
A insônia.
O silêncio das noites sem fim.
E a morte parece espreitar os dias como um corvo que espreita um animal ferido no deserto.
O velho é um gigante por dentro e um frágil menino por fora.
Daqui a pouco, serás lembranças, para alguns, saudade talvez.
Mais tarde, apenas uma foto esbranquiçada sobre a mesa, um alguém distante de outro alguém indiferente a sua ausência.
WALTERLI LIMA





