O Poço do Rei
Um preto, um mulato e um cajado,
E eu, ali, resmungando agachado,
Dizendo: “Sim, senhor”.
Na senzala, homens fortes arrastados,
Uma criança ao meu lado,
Aprendiz de empregado,
Que não sabe dizer “não”.
Mais à frente, bem mais longe dos gemidos,
Casarão, firme, altivo,
Corpo branco, bem vestido,
Olhos claros, ostentação.
Lá jorra água pura e cristalina,
Que desce lá das colinas,
Enchendo o poço do rei.
Cá embaixo, uma secura desgraçada,
Estiagem de invernada,
Ruas de pó e servidão.
Ó meu Deus, quanta dor e sofrimento!
É agonia, é lamento,
Dessa gente tão carente,
Que só vive a padecer.
E de corpos mutilados,
Pelas ruas, arrastados,
Dão boa vida aos abastados,
Enchendo o poço do rei.
Enchendo o poço do rei…
Walterli Lima.





