Sento-me sem camisa ao final do dia, diante da paisagem cotidiana.
Sobre os ombros, pesa a bagagem acumulada ao longo de décadas: memórias, erros e conquistas.
Todos os dias desfaço e refaço essa bagagem, como quem prepara as malas para uma viagem que nunca chega.
O que me resta é a paisagem à frente.
O passado? Já não é meu.
Às vezes, surge como lembranças embaçadas, como vidraça num dia de chuva.
O futuro? Um horizonte incerto, que não pertence a ninguém.
Amigos? Conto-os nos dedos de uma única mão.
Os que a morte não levou ao esquecimento, o tempo tratou de triturar.
São tantos os rostos que antes traziam conforto e hoje não passam de fotografias desbotadas numa gaveta esquecida.
Dos amores, restou o amargo sabor da fria indiferença.
Chego a duvidar do amor.
Filhos? Pensamos que os moldamos, mas eles são passarinhos prontos para deixar o ninho.
Eles não vêm de você; vêm por algo muito maior, além do alcance de suas mãos e olhos.
Tantos planos esmagados no moinho paciente dos dias, esquecidos como sonhos noturnos que se dissipam com o primeiro gole de café.
A solidão é o destino de tudo que vive.
O que a vida fez de mim, se nem mesmo sei quem sou?
Se ao menos pudesse guardar todos os sonhos noturnos nas páginas de um livro, talvez o inconsciente revelasse, nas entrelinhas, um “eu” ainda desconhecido, um “eu” para além da paisagem imóvel à minha frente, que transcenda os limites entre presente, passado e futuro.
O que vejo são meras fantasias, múltiplas faces encobrindo os rostos no interminável teatro que chamamos de vida.
Levanto-me da cadeira, e meus passos cortam o silêncio ao redor.
Mas, para onde quer que vá, acompanha-me esta paisagem cotidiana: muda, mórbida e reveladora.
Walterli Lima.





