Januário, herói sem raízes, por professor Walterli Lima.
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Januário, herói sem raízes, por professor Walterli Lima.

Januário, menino negro, fugiu da pobreza dos confins do mundo em busca dos arranha-céus.

Na solidão de passos sozinhos os pés descalços sabiam onde queriam chegar.

Vagou nos dias, seguiu a caminhar noites a dentro, sem parar.

Conheceu o lado negro das ruas sem deixar-se levar por suas armadilhas.

Feito flechas de luz adentrando na mata escura galgou um lugar ao sol.

Agarrou-se às poucas oportunidades que surgiram em seu caminho como um faminto agarra-se ao pedaço de pão.

Talento e inteligência invejáveis escondidos atrás da pele pobre e escura, pedra rara a ser esculpida.

O mundo lhe sorriu.

Os mesmos pés descalços que fugira da miséria e da fome, aos poucos alcançou degraus onde poucos pés puderam chegar.

As pessoas, o mundo ao seu redor fantasiados com a comovente história do negro menino órfão que dormiu nas ruas e vencera todos os obstáculos que vida lhe impôs.

Januário, herói sem raízes.

A vida nos cobra ou nos premeia por nossas atitudes.

Um certo dia, como outro qualquer, Januário, que não mais via pobreza ao redor, apenas a hipnótica sinfonia dos aplausos dos agora seus iguais, fora surpreendido pelas curvas da vida.

Dentre os milhares que lhe cercavam, em meio aos ovacionados gritos de elogios da gente bem vestida que acostumara a ver, um homem maltrapilho de aparência cansada a segurar a mão de um menino e cujo as lagrimas molhavam o rosto, era figura desconsoante ao meio.

Januário, seu velho pai, de mesmo nome emprestado ao filho mais velho que abandonara sua casa ainda jovem.

Ele ao lado do filho mais novo não era herói, apenas mais um anônimo, iguais a tantos outros encobertos pelas escórias sociais que tornam os homens invisíveis.

Abandonou o pouco que a vida lhe permitiu juntar à procura do filho que depois de anos acabara de encontrar.

Januário, o herói sem raízes, que se pronunciava órfão na tentativa de apagar o passado veio ao chão.

Apequenou-se no alto do pódio e simplesmente chorou.

Quem esquece suas raízes abandona a si mesmo, torna-se pequeno e frágil, por mais alto que consiga chegar.

Prof . Walterli Lima

Categoria: Notícias